O choro do bebê e as nossas crenças parentais: por que o pranto nos causa tanto desespero?
Bem-estar 20 de outubro de 2020 4 min de leitura

O choro do bebê e as nossas crenças parentais: por que o pranto nos causa tanto desespero?

Existe um senso comum perigoso que acredita — ou espera — que o choro de um bebê desperte automaticamente no adulto um sentimento doce e um comportamento perfeitamente adequado para ampará-lo. No entanto, essa expectativa romântica simplesmente não se confirma na vida real.

Muitas vezes, o que o choro do bebê e da criança pequena desperta em nós, adultos, são sentimentos profundos de angústia, ansiedade, ressentimento, derrota e até mesmo desespero. Em casos mais densos, surge até a dúvida secreta e culpabilizante sobre o amor que sentimos pela nossa própria cria.

Grande parte dessas reações automáticas é motivada por crenças disfuncionais de que nós somos os únicos responsáveis por aquele choro (como um atestado de incompetência) ou de que a criança está utilizando aquela expressão para nos testar, afrontar ou manipular.

O peso da nossa própria criação

A verdade é que a nossa história e a nossa criação não nos favoreceram nesse sentido. A maioria de nós não teve a experiência de ter o próprio choro acolhido na infância. Pelo contrário: aprendemos muito cedo que chorar era uma resposta inadequada, feia, que demonstrava fraqueza e que quase nunca era proporcional ao mal que estávamos sentindo.

Quem não se lembra de frases como: “Engula esse choro!” ou “Se não parar, eu vou te dar um motivo real para chorar!”? São diferentes alegorias culturais para a mesma crueldade invisível, que se manifesta através de ameaças, punições, privações, distrações forçadas, provocações ou vergonha.

Como resultado desse histórico, nós associamos o choro com a perda absoluta de controle. Não é à toa que você, já na vida adulta, certamente já se desculpou por ter chorado diante de outra pessoa e, da mesma forma, já se sentiu profundamente constrangida ao presenciar alguém em prantos.

A nossa reação natural e defensiva diante do sofrimento alheio é encontrar qualquer coisa que alivie a tensão daquele momento embaraçoso: tentamos mudar de assunto, desviar a atenção para outra situação, minimizar a dor do outro com frases feitas ou encontrar uma solução prática e rápida para entregá-la como um paliativo. Acolher o pranto do outro sem tentar consertá-lo exige estômago; mexe com as nossas sombras e, literalmente, “faz revirar as tripas”.

O confronto inevitável do puerpério

Por essa razão exata, ter um bebê que chora se transforma em um sofrimento agudo para a nova mãe. Ela se confronta com o espelho da sua própria história e passa a se sentir insuficiente, inapropriada e incapaz.

No entanto, bebês choram por natureza. Isolar a mãe desse som é impossível, o que torna inevitável o confronto com esse mal-estar interno. Compreender que o choro nos desestabiliza não por causa do bebê, mas por causa do nosso passado, é o primeiro passo para a cura e para a autoeducação.

Nas próximas postagens, entraremos de cabeça na fisiologia do choro e do estresse no recém-nascido, no bebê e na criança, buscando caminhos e ferramentas mais adequadas para lidar com esses momentos sem nos abandonarmos.

Espaço da nossa Aldeia

Desarmar as defesas que construímos contra o choro exige uma coragem imensa para olhar para a nossa própria infância.

Se você parar um minuto agora, quais são as suas principais memórias e crenças antigas sobre o ato de chorar? Como o seu corpo reage hoje quando você vê o seu filho chorar ou quando sente vontade de chorar diante de alguém?

Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.