Vergonha materna: como lidar com a culpa, a autocensura e o peso dos nossos erros
Bem-estar 11 de outubro de 2020 3 min de leitura

Vergonha materna: como lidar com a culpa, a autocensura e o peso dos nossos erros

Silenciosos momentos de pausa, por vezes, nos assombram com pensamentos dolorosos. São nesses instantes de quietude que lembramos de algumas situações específicas que vivemos com os nossos filhos e uma inibição profunda toma conta do peito. Muitas vezes, usamos a chave da “culpa” para tentar abrir essa porta, mas o verdadeiro sentimento por trás dela é uma vergonha avassaladora.

A vergonha parental é uma censura implacável sobre nós mesmas. O impulso imediato que ela gera é o de nos afastar, deixando aquele mal-estar nos intoxicar silenciosamente. Em segundos, esse sentimento tem o poder devastador de invalidar todos os nossos outros feitos possíveis, amorosos e perfeitamente suficientes. O foco da mente se estreita e ficamos presas, ouvindo frases duras repetidas em eco dentro de nós.

A armadilha de tentar fugir do erro

Por inúmeras vezes, a nossa reação automática é tentar fugir desse gosto amargo. Tentamos justificar o que aconteceu, relativizar o comportamento ou buscar um alívio rápido. No entanto, nenhuma dessas defesas é suficiente para reparar as possíveis consequências daquele ato ou para nos trazer o descanso genuíno de sermos acolhidas em nossa real humanidade.

O recurso verdadeiramente valioso — que serve como um profundo processo de autoeducação — tem sido o oposto da fuga: é olhar com atenção para essas cenas.

O caminho para desarmar a autocensura é reviver essas memórias sem julgamento e sem a expectativa irreal de perfeição. Quando olhamos para as nossas falhas com honestidade nua e crua, no lugar da vergonha paralisante, costuma surgir um arrependimento verdadeiro e uma empatia profunda por nós mesmas e pela criança. Isso nos refresca com a liberdade de poder continuar aprendendo, trazendo fluxo e movimento para pensamentos que antes eram densos e estagnados.

O maior legado: a coragem de pedir desculpas

Existe um poder educativo e curativo imenso quando decidimos levar essa franqueza para os nossos filhos. Em vez de fingir que nada aconteceu para manter uma postura de autoridade intocável, nós podemos convidá-los a recordar aquela experiência difícil.

Nesse movimento, nós revelamos o nosso arrependimento sincero e abrimos espaço para a escuta ativa: “Como você se sentiu naquele momento quando a mamãe agiu daquela forma?”. Em seguida, pedimos desculpas e investigamos, junto com eles, se há alguma maneira de reparar a nossa atitude.

Essa vulnerabilidade liberta os pais e tira das costas das crianças o peso de terem que ser perfeitas. Ela expõe a nossa essência estritamente humana e cria uma aproximação e uma conexão que nenhum acerto perfeito seria capaz de construir. No fim, compreendemos que há lugar também para amar as nossas falhas, pois elas são parte indissociável do caminho.

Espaço da nossa Aldeia

Romper com o mito da “mãe perfeita” e aprender a olhar para os próprios erros com autocompaixão e desejo real de reparação é um dos passos mais maduros da nossa jornada.

Você considera que as cobranças externas ou as suas próprias expectativas internas são as maiores geradoras dessa vergonha parental? Já conseguiu viver a experiência de pedir desculpas sinceras ao seu filho e perceber o alívio que essa franqueza traz para a relação de vocês?

Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.