O perigo de se anestesiar na rotina: como resgatar a sensibilidade materna diante da exaustão
Bem-estar 17 de janeiro de 2021 3 min de leitura

O perigo de se anestesiar na rotina: como resgatar a sensibilidade materna diante da exaustão

O maior risco que eu corro quando as tarefas invisíveis tomam conta da rotina, e os dias passam a se repetir de forma entediante e monótona, é o de me anestesiar. É o perigo de deixar de ser sensível, de ligar o piloto automático e embarcar em pensamentos que me mantêm mentalmente distante do lugar onde meu corpo está.

Devido a tantas demandas simultâneas e solicitações ininterruptas, percebo a sensibilidade começar a escorrer pelos dedos, a se afastar de mim. Como resposta a esse massacre cotidiano, o corpo enrijece. É como se uma casca grossa se formasse ao meu redor, funcionando como um escudo protetor contra o excesso de estímulos. A respiração sobe, tornando-se curta e acelerada.

Nesse estado de anestesia, os sentidos mudam: o olhar perde o detalhe, o toque fica áspero e a tendência é fugir o quanto posso de qualquer contato — até a pele dói. A voz se eleva e o mundo fora das quatro paredes de casa se transforma em um atraente e irresistível convite.

A armadilha da impotência e o refúgio no trabalho

O caminho que nos leva a essa perda tão significativa de nós mesmas é a experiência frequente da frustração e da impotência. Não é nada confortável sentir-se insuficiente, lidando com a sensação constante de estar deixando de fazer tantas coisas por si e pelos outros.

Nesse cenário, o mundo profissional se torna um refúgio óbvio. É muito melhor experimentar a possibilidade de entrega, resultados imediatos e reconhecimento palpável que temos no trabalho do que mergulhar no trabalho invisível e cíclico da maternidade.

O problema é que esse circuito de fuga e anestesia tende a nos afastar cada vez mais das nossas reais necessidades, tornando as relações familiares cada vez mais caóticas. Com o tempo, o próprio afastamento passa a ser visto como algo justificável, criando um abismo entre a mãe, o parceiro e os filhos.

O que fazer quando a casca endurece?

Se você se percebeu dentro desse mecanismo de defesa, o primeiro passo não é se culpar ou tentar forçar uma doçura que você não está sentindo. O caminho é acolher a sua frustração e a sua impotência. Aceite que elas estão aí e que fazem parte do processo humano de se redefinir.

Em vez de enxergar esses sentimentos densos como o fim da linha, experimente transformá-los em um convite para a superação. Eles são o ponto de partida para a conquista de um lugar em si mesma que seja repleto de recursos, limites claros e autoconhecimento. A sensibilidade só volta quando o ambiente interno se torna seguro o suficiente para que a casca possa, finalmente, ceder.

Espaço da nossa Aldeia

A anestesia emocional é um mecanismo de sobrevivência do nosso cérebro quando o cansaço ultrapassa o limite do suportável.

Como você já se pegou operando nesse modo anestesiado, sentindo o toque áspero ou o desejo profundo de fugir para a rotina do trabalho? Como você faz para amolecer a casca quando percebe que endureceu demais? Compartilhe a sua história nos comentários. Vamos continuar transformando as nossas dores em uma rede de liberdade e acolhimento mútuo.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.