Pés sujos, almas livres: a beleza da infância real e o direito de pisar no mundo
Desenvolvimento 21 de janeiro de 2020 3 min de leitura

Pés sujos, almas livres: a beleza da infância real e o direito de pisar no mundo

Há quem olhe para uma criança correndo descalça e consiga enxergar apenas a sujeira. “Olha que pés sujos!”, diria aquele que vive com os próprios pés protegidos, distantes do chão. Mas aqueles que aprenderam a ver através das aparências diriam outra coisa: “Quanta determinação e superação habitam em pés tão pequenos”.

Esses são pés que escalam alturas, que não se abalam com o relevo das pedras pontudas e nem com o calor do sol guardado no solo. Pés impetuosos. Quem ousaria deter tamanha força vital? Trata-se da volição própria da infância, uma energia que empurra o corpo para a frente.

São raízes sólidas que percorrem alegremente caminhos pelo simples prazer de conhecê-los. Na pesquisa livre pelo quintal, esses pés encontram tesouros, reinos e mundos inteiros.

Histórias que sapatos de marca não contam

Salve a infância escrita nos pés cheios de terra, poeira e histórias — marcas que sapatos caros de grife jamais conseguirão contar. Uma infância vivida na pele traz lembranças de entrega, de conquista e de superação. São desafios impostos pela própria criança que, após cada pequena vitória motora, continua avançando para se tornar o que veio ser.

Essa exploração atinge o seu ápice quando encontra o combustível certo: a celebração compartilhada através do olhar presente do adulto que testemunha sem intervir.

Nada tirará dessas crianças a potência da infância que viveram. Os pés, um dia, crescerão e serão limpos, mas as memórias gravadas no corpo nunca se apagarão. Serão lembranças feitas de cheiros, de cores e de calores. E os pequenos arranhões e machucados do percurso não serão marcas de descuido, mas lembranças físicas de que a vida corre nas veias e tem ânsia de se experimentar através dos pés de uma criança.

Espaço da nossa Aldeia

Permitir que os filhos fiquem descalços, se sujem de lama e testem os limites do próprio equilíbrio exige que o adulto abra mão do controle higiênico e da neurose da limpeza.

Como tem sido a sua relação com a “sujeira” saudável do brincar livre por aí? Você consegue relaxar e enxergar a autonomia acontecendo nos pés descalços do seu filho ou a ansiedade da limpeza fala mais alto? Deixe o seu relato nos comentários e venha se inspirar na nossa aldeia!

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.