Diante das frustrações inevitáveis que acompanham o crescimento físico, psíquico e emocional, a experimentação da raiva é um fenômeno absolutamente natural e inerente à infância. Sentir raiva, por si só, não causa nenhum dano ao desenvolvimento saudável de uma criança. No entanto, ser abandonada emocionalmente nesses momentos provoca uma experiência muito mais intensa e perigosa: o desespero.
A criança pequena ainda não tem maturidade neurológica para compreender que aquele estado avassalador de fúria vai passar. Ela não sabe que o desconforto, eventualmente, diminuirá e pedirá ao organismo para ativar recursos biológicos para se regular novamente. Para ela, a raiva é eterna enquanto dura.
Se os pais julgam esse sentimento, olhando unicamente para o comportamento inadequado da superfície, eles correm o risco de deixar o filho desamparado. Nesse segundo, a criança deixa de experimentar apenas a raiva que a mobilizava e passa a viver um desespero desproporcional.
O comportamento não é uma provocação
Quando nos propomos a observar as reações da criança com sensibilidade clínica e afeto, sem tomar as suas explosões como uma afronta pessoal, provocação ou tentativa de manipulação, o cenário muda.
É através desse olhar limpo que garantimos que a nossa empatia funcione como uma âncora, impedindo que uma emoção natural da infância se transforme em uma experiência devastadora e traumática.
O julgamento que rotula o comportamento da criança como “feio”, “errado” ou “inapropriado” faz com que ela se sinta profundamente sozinha no meio da tempestade. Quando esse abandono acontece repetidamente, a emoção reprimida pode até deixar de se manifestar no comportamento visível, mas ela não desaparece: ela se materializa.
O corpo grava o que a mente não nomeia
O corpo da criança grava meticulosamente a experiência de isolamento e rejeição, mesmo que ela ainda não consiga traduzir ou nomear o que sentiu.
Esses registros invisíveis crescem pareados no inconsciente, determinando, anos mais tarde, as nossas reações automáticas diante de conflitos, pessoas e situações na vida adulta.
Garantir o acolhimento na hora da raiva não é validar a agressividade ou a falta de limites; é dar o contorno seguro para que o seu filho aprenda a navegar pelas próprias sombras sem medo de perder o seu amor.
Espaço da nossa Aldeia
Mudar a nossa perspectiva e enxergar o desespero por trás da raiva do filho exige que a gente acesse muita autocompaixão para não reagir no piloto automático.
Como costuma ser a sua reação quando o seu filho explode em raiva? Você sente que consegue ser a âncora dele ou a tempestade dele acaba ativando as suas próprias frustrações?
Compartilhe a sua reflexão nos comentários. Vamos conversar sobre a importância de dar contorno e segurança aos sentimentos dos nossos pequenos.


