Em pouquíssimos casos, a nossa rede de apoio ideal e segura coincide com a nossa família de origem. Embora pareça social e moralmente correto permitir que os nossos pais participem ativamente da rotina e da educação dos nossos filhos, em muitas realidades essa escolha pode se transformar em uma verdadeira catástrofe familiar.
Vale a pena fazermos perguntas honestas a nós mesmas: por que deveríamos confiar cegamente os nossos filhos a uma mãe que, em nossa própria infância, nos violentou física ou emocionalmente? Por que nos sentimos obrigadas a entregar a nossa cria aos cuidados de alguém que não nos respeitou quando éramos crianças? Quem foi que determinou que precisamos, obrigatoriamente, contar com a nossa família de origem para dar conta da parentalidade?
Eles continuam fazendo parte da nossa história, é claro. Mas cessar de uma vez por todas com a violência invisível que vem cruzando gerações é, sem dúvida nenhuma, a forma mais profunda de honrar os nossos ancestrais. E interromper esse ciclo não significa conviver diariamente, tampouco deixar os nossos filhos sob os cuidados dessas pessoas.
O fim da espera pelo amor da mãe
A terapeuta e escritora Laura Gutman trouxe uma reflexão cirúrgica sobre isso: “Nossa mãe não nos amou o quanto precisávamos quando éramos crianças. E nós, enquanto adultos, não precisamos mais que mamãe nos ame”.
É duro de aceitar? Sim, porque essa resistência vem da nossa criança interna, que ainda chora e implora para ser vista e amada por aquela mãe. Mas a realidade do adulto é outra: nós já recebemos dela o que havia de mais essencial — a vida. Agora, cabe a cada um de nós decidir, com autonomia, o que fazer com ela.
Não há dúvida de que o apoio e o convívio comunitário durante o puerpério e ao longo de toda a maternidade são fundamentais para a nossa sanidade. No entanto, precisamos buscar o apoio de pessoas que genuinamente acreditem na nossa capacidade de nos conectar e de atender às necessidades dos nossos filhos.
Aprender a aceitar a ajuda de amigos, de redes comunitárias ou até de pessoas que não são tão conhecidas exige um amadurecimento doloroso. Mas insistir em esperar pelo amor e pelo suporte de uma mãe que não correspondeu a isso na infância nos mantém paralisadas. Como bem diz aquele velho ditado popular: errar uma vez é humano, mas insistir no mesmo erro é loucura. Não podemos continuar repetindo essa loucura com os nossos filhos.
Precisamos transformar o mundo, e essa revolução começa quando escolhemos honrar o sacrifício de todos os que vieram antes de nós, mas decidindo, conscientemente, colocar o amor e o respeito no lugar da mera repetição e sobrevivência.
Espaço da nossa Aldeia
Romper com a herança da violência familiar e construir uma rede de apoio baseada na escolha e no afeto real é o maior ato de proteção que podemos oferecer à infância.
Você já se pegou tolerando atitudes desrespeitosas da sua família de origem com os seus filhos apenas pelo peso da obrigação moral de mantê-los por perto? Como tem sido para você o processo de construir uma rede de apoio alternativa com amigos ou profissionais que realmente validam as suas escolhas maternas?
Se você conhece alguém que precisa fazer essa reflexão profunda e se libertar dessa culpa, marque essa pessoa nos comentários. Vamos continuar apoiando as mães a criarem redes de afeto reais na nossa aldeia!


