A raiz invisível da violência: onde o mal começa e qual é a nossa responsabilidade?
Autoconhecimento 9 de abril de 2021 4 min de leitura

A raiz invisível da violência: onde o mal começa e qual é a nossa responsabilidade?

Que a tristeza e a indignação causem uma dor profunda na alma de todos nós que assistimos a episódios repetidos de violência extrema acontecerem diante dos nossos olhos, sem nada refletir e sem tomar para nós a responsabilidade que nos cabe.

Geralmente, nós só conhecemos essas histórias trágicas pelo fim — pelo desfecho brutal e fatal que ganha as manchetes. Mas e as tantas outras dinâmicas violentas que estão acontecendo agora, neste exato momento, que não percebemos, mas que participam da nossa vida e pedem a nossa atitude o tempo todo?

Precisamos ter a coragem de perguntar:

Essa violência sistêmica é algo que nós herdamos do passado e que continuaremos deixando de legado para as próximas gerações enquanto não agirmos com real presença e consciência. Nós precisamos, urgentemente, pactuar uma verdade absoluta: a violência NUNCA pode ser justificada.

A defesa da violência como sintoma de dor

Se houver em sua argumentação, em seus pensamentos ou nas suas conversas cotidianas qualquer tentativa de justificar, atenuar ou relativizar um ato de violência contra uma criança ou um ser vulnerável, pare e procure ajuda profissional.

Clinicamente, quem defende a violência ou o uso da força como ferramenta educativa quase certamente foi vítima dela no passado. Para não entrar em contato com a devastação emocional e com o desamparo que sofreu na infância, a pessoa se apega à ilusão de ser uma “sortuda sobrevivente” e passa a replicar e defender o mesmo sistema que a feriu.

Desde os tempos de faculdade, uma pergunta vive em mim e guia a minha escuta: Onde o mal começa? Como fazemos para que esse fim cruel não seja uma constante realidade na nossa sociedade?

Quando nasceu o meu primeiro filho, eu finalmente compreendi.

A ruptura do vínculo primordial como porta de entrada para o caos

O mal começa na base. Ao separarmos, sem necessidade médica real e de forma puramente normativa, um bebê de sua mãe nos primeiros momentos de vida, nós consentimos com a primeira grande violência institucionalizada. E, a partir desse primeiro corte, a avalanche nos engole.

Nós atrapalhamos e fragilizamos o vínculo primordial. Esse lugar poderoso de simbiose e segurança biológica é, por excelência, o espaço onde o desamparo e o mal não encontram brechas para atuar.

Será que uma mãe que mal teve a chance de se vincular ao próprio filho, que foi desaprovada, silenciada e não reconhecida em sua potência pelo sistema, conseguiria ter recursos psíquicos plenos para lutar pela sobrevivência de um ser que a cultura fez parecer alheio a ela?

Não se trata aqui de procurar culpados individuais, de encontrar formas de justificar fatos terríveis ou de amenizar as responsabilidades legais e criminais de quem comete uma atrocidade. Absolutamente.

Trata-se de entender que, enquanto não olharmos de forma coletiva, sistêmica e com profunda responsabilidade para o que é sensível e estruturante na primeira infância, permaneceremos impotentes e enxugando gelo.

A não violência não é uma ideologia barata ou um discurso político; a não violência é uma atitude concreta de proteção à vida. E essa atitude começa no respeito ao colo, ao parto, ao puerpério e ao direito de cada criança crescer em um ambiente seguro.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.