A escolha invisível: o luto da carreira, a dedicação aos filhos e o valor social do cuidado
Maternidade 14 de maio de 2021 4 min de leitura

A escolha invisível: o luto da carreira, a dedicação aos filhos e o valor social do cuidado

O maior desafio que já vivi na minha vida foi assumir e, acima de tudo, valorizar a importância do meu próprio maternar. Tomar a decisão improvável de pausar a vida pública, depois de anos investindo tempo e energia para construir uma carreira e me capacitar profissionalmente, para “só” cuidar dos filhos, exige um esforço interno que poucos conseguem mensurar.

No momento em que decidi dar esse passo, precisei abrir mão de um projeto que havia sido o grande motor para o meu retorno ao Brasil — um propósito que não era importante apenas para mim, mas para várias outras mulheres que precisavam acreditar em novas realidades possíveis para as suas próprias jornadas. Escolhi investir na qualidade das relações da minha família. No entanto, o mais difícil não foi o ponto de partida; foi sustentar essa decisão ao longo dos anos. Foi o exercício diário de reconhecer o valor real que a dedicação e o cuidado com as crianças teriam para o nosso núcleo familiar, para cada um de nós e para a sociedade.

Entre o privilégio e a invisibilidade: as duas faces da moeda

Nessa travessia, a ambivalência é uma companheira constante. Em muitas situações, eu me senti profundamente privilegiada. Podia acompanhar de perto cada detalhe do desenvolvimento de cada um dos meus filhos, estar genuinamente disponível para as tarefas da escola, fazer um piquenique despretensioso no meio da semana e saborear a ausência de uma agenda fixa de compromissos corporativos.

Em outros momentos, porém, o cenário mudava drasticamente. Vinha a raiva ao perceber que todo esse investimento monumental de tempo, de energia vital, de presença e de superação diária permanecia absolutamente invisível aos olhos do mundo.

Quando eu entrava nesse estado de revolta, sentia uma dor dilacerante. Era a sensação de injustiça por ocupar um lugar social desprovido de reconhecimento, de valor financeiro ou da emancipação tradicional que a sociedade ocidental tanto prega. Para piorar, a solidão agravava o quadro. Perguntas e comentários corriqueiros do tipo: “Você só cuida das crianças?”, “Você só fica em casa?” ou “Você não trabalha?” minavam a minha coragem e faziam com que eu me fechasse em um casulo de proteção.

O impacto no casamento e a ilusão da terceirização do sofrimento

Invariavelmente, a relação conjugal também sofria os impactos dessa turbulência interna. Naquela dor, eu passava a reivindicar do meu parceiro um direito e uma parceria pelo meu sofrimento. No calor da exaustão, eu me esquecia de que aquela havia sido uma escolha mútua: nós havíamos decidido, juntos, prezar pela qualidade da criação que gostaríamos de oferecer às crianças.

Essa dinâmica é muito comum nos bastidores clínicos. Quando a mulher se sente invisibilizada pelo mundo lá fora, ela tende a cobrar que o cônjuge repare, sozinho, toda a falta de valorização que a sociedade comete contra ela. É um peso grande demais para o casamento sustentar se não houver um alinhamento constante e consciente dos combinados familiares.

O cuidado como um patrimônio inestimável

Eu sei, com absoluta clareza, que essa dor e esse luto não são exclusivos meus. Diariamente, escuto os ecos dessa mesma angústia no consultório.

Por isso, eu sonho acordada com o dia em que o cuidado que uma mãe dedica aos seus filhos deixará de ser tratado como “inatividade” ou invisibilidade e passará a ser celebrado como um valor social fundamental — como o patrimônio inestimável que realmente é. Desejo profundamente que a mulher, ao escolher cuidar dos seus, não sinta que está perdendo ou apagando uma parte vital de si mesma no processo.

A construção de uma parentalidade consciente passa, obrigatoriamente, pela validação de que o trabalho invisível do lar sustenta o mundo visível lá fora. E encontrar outras mulheres e homens dispostos a sonhar e a estruturar essa nova realidade comigo é o que mantém o ParentalLab de pé.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.