O termo “autocuidado” virou a grande onda da vez. No entanto, por trás do marketing comercial dessa palavra, eu prefiro sentir a brisa suave da afetividade. Enxergo esse movimento como uma permissão tardia para recebermos o carinho, o afeto e a doçura que, talvez, tenham nos sido negados em nossa própria infância.
Recentemente, vi uma ilustração sobre a famosa metáfora da taça. A ideia é simples e visual: as crianças precisam ter a sua “taça de necessidades” constantemente repleta, e vários comportamentos desafiadores funcionam como um alerta de que o recipiente está esvaziando.
É uma imagem poderosa e que funciona perfeitamente para nós, adultos, também. Se a nossa própria taça está vazia, não temos de onde tirar forças para encher a taça de mais ninguém.
O detalhe que me chamou a atenção, porém, é que a principal forma de reabastecer esse recipiente humano é através das relações. E aqui mora um ponto cego que nos passa despercebido: nós, adultos, tendemos a achar que a nossa relação com os filhos é uma via de mão única. Temos a percepção de que estamos apenas dando, ou seja, nos esvaziando. Sob essa lógica, acreditamos que para nos recarregar precisamos necessariamente nos afastar das crianças e tomar o que precisamos longe delas.
A ilusão da terceirização afetiva
Embora o distanciamento estratégico tenha o seu valor em momentos de estresse, focar apenas nisso pode ser uma grande pegadinha — mais uma história que nos contam para justificar a terceirização dos nossos filhos.
Não existe vida rigidamente separada entre mãe e filho. É claro que seremos mães melhores se buscarmos espaços, hobbies e coisas que nos façam bem individualmente. Mas precisamos resgatar uma verdade esquecida: cuidar de alguém, vê-lo crescer feliz e saudável, é um dos maiores sucessos que alguém pode experimentar na vida.
As nossas taças também podem — e devem — ser abastecidas na relação direta com as crianças. É incrível a generosidade que os filhos demonstram quando nós genuinamente os incluímos na nossa vida e os ensinamos a ser felizes, sendo felizes ao lado deles. Construir e sustentar relações saudáveis dentro de casa é, em si, um ato profundo de cuidado consigo mesma.
Já recebi mães no consultório que tinham passado vários finais de semana consecutivos imersas em cursos sobre relacionamento familiar. Na lógica delas, estavam praticando o autocuidado. Achavam sinceramente que chegariam em casa e, pelo simples fato de ostentarem o diploma do curso, os problemas da convivência teriam desaparecido. Um grande equívoco. O saber teórico não substitui a coragem de habitar o vínculo real.
Os pequenos rituais do sim
O verdadeiro autocuidado não exige grandes eventos; ele se alimenta de rituais singelos integrados à nossa rotina. Uma massagem, uma boa conversa, uma caminhada despretensiosa, o ato de pisar descalço na grama, tomar um banho completo sem pressa ou passar um hidratante no corpo.
Esses pequenos movimentos nos reabastecem sensivelmente, desde que sejamos capazes de dar verdadeira importância a eles, batizando-os pelo nome que têm: autocuidado. Da mesma forma, provocar um sorriso espontâneo no seu filho ou cozinhar o prato preferido da família também nutre a alma. O autocuidado acontece nas relações.
Como mães, temos a privilegiada e assustadora oportunidade de influenciar o destino de quem amamos para sempre. Cuidar de si mesma, portanto, é um gesto sagrado de dizer “sim” à sua própria vida para, só então, ter a estrutura necessária para aceitar e sustentar a beleza de influenciar todas as outras ao seu redor.
Espaço da nossa Aldeia
Mudar a nossa percepção sobre o cansaço parental exige parar de enxergar os filhos apenas como drenos de energia e começar a percebê-los também como fontes de troca e nutrição mútua.
Você também já caiu na armadilha de achar que o autocuidado só acontece quando você está longe dos seus filhos? Consegue identificar quais pequenos rituais do dia a dia — ou quais momentos de troca com as crianças — têm o poder de reabastecer a sua taça de forma genuína? Deixe a sua experiência nos comentários. Vamos continuar construindo a nossa aldeia de trocas reais!


