Qual é a verdadeira diferença entre culpa e responsabilidade?
Basta esse assunto surgir em qualquer roda de conversa para que ele se transforme em uma batata quente que ninguém quer segurar. Esse é um tema que vejo aparecer com muita frequência no consultório entre as mães, mas que também pulsa fortemente entre as crianças. Os pequenos são capazes de debater por horas até encontrarem o veredito de quem é o culpado por algo — afinal, eles aprenderam que o dono da culpa deve ser punido, castigado ou banido. Nós fomos educados assim.
Talvez seja exatamente essa a razão pela qual, quando nos tornamos adultos, temos tanta dificuldade em transformar a nossa culpa em responsabilidade.
Ultimamente, muitos movimentos que pautam a “maternidade real” buscam, de forma legítima, ajudar as mães a não se sentirem tão culpadas pelo peso da rotina. O problema é que, ao tentarem aliviar esse fardo, esses discursos muitas vezes esquecem de ajudar as mães a se sentirem responsáveis.
O exemplo da fralda: intenção vs. fato
Pensemos em um exemplo prático: um bebê ficou com a fralda suja por tempo demais e acabou desenvolvendo uma assadura que o incomoda profundamente. A mãe tem culpa? Muitos dirão imediatamente que não, justificando que ela jamais teve a intenção de machucar o filho.
Ora, com ou sem intenção, a responsabilidade pelo bem-estar e pela integridade daquela criança é dos adultos que deveriam estar cuidando dela. Com ou sem intenção, o fato aconteceu. Assumir a responsabilidade significa olhar para o ocorrido, acolher o sofrimento do filho e aprender com o erro para fazer diferente da próxima vez.
A culpa, isoladamente, não serve para absolutamente nada. Ou melhor: serve apenas para nos encolher, nos deixando paralisadas em um lugar de autopiedade, com pena de nós mesmas por termos que trocar tantas fraldas e lidar com tantas demandas.
Essa quebra na ordem natural das famílias — onde crianças sofrem porque os adultos se recusam a ocupar o seu próprio lugar de cuidadores — traz um prejuízo social silencioso e enorme. É uma verdadeira loucura institucionalizada. A criança do exemplo acima, diante do vazio de não ter ninguém atento às suas necessidades básicas, acaba assumindo a culpa pelo próprio sofrimento. Como consequência, quando ela crescer e tiver que cuidar dos que vierem depois, provavelmente repetirá o mesmo padrão de negligência, porque, no fundo, ela ainda passará a vida esperando ser cuidada por alguém.
Para assumir a maternidade, precisamos nos tornar adultos
Para assumirmos o papel de mãe por inteiro, precisamos ter a coragem de nos tornar adultas. Isso exige deixar ir a nossa própria infância e as nossas carências infantis de aprovação.
Crianças dão trabalho. Crianças demandam atenção constante e conexão real. Uma coisa é nos sentirmos humanas e limitadas no cansaço do dia a dia para atendê-las; outra coisa, completamente diferente, é dizermos que elas são inadequadas, difíceis ou erradas por precisarem daquilo que elas legitimamente precisam.
Se escolhermos agir com responsabilidade, vamos reconhecer as nossas limitações sem nos chicotear, buscando formas práticas para que as necessidades da criança sejam devidamente atendidas. Se, por outro lado, preferirmos nos anestesiar no papel da culpa, passaremos o tempo todo desejando que os nossos filhos dessem menos trabalho, usando como escudo a velha frase: “mas eu já faço tanto…”.
Espaço da nossa Aldeia
Romper com a infância em nós mesmos é o passo mais doloroso e necessário para conseguirmos oferecer um contorno seguro aos nossos filhos.
Você já se pegou usando a desculpa de que “não teve a intenção” para fugir do incômodo de reparar um erro com o seu filho? Como tem sido para você o exercício de transformar a culpa paralisante em uma responsabilidade ativa, que assume a falha e muda a rota da rotina? Deixe a sua verdade nos comentários. Vamos continuar amadurecendo as nossas posturas juntas nesta aldeia!


