O mundo inteiro está pronto para dar pitacos sobre a criação de um filho. Atualmente, inclusive, a moda é dar palpites para que a mãe não ouça os palpites alheios. “Esqueça tudo e siga o seu instinto!”, decretam os mais engajados na parentalidade consciente.
Acontece que existe um paradoxo invisível nessa ordem. Passamos a maior parte da nossa vida adulta sendo educadas, moldadas e treinadas para silenciar e não respeitar os nossos instintos. E agora, de repente, no momento mais vulnerável da nossa existência, recebemos a missão de confiar cegamente neles.
Exatamente quando o bebê nasce, duas forças psíquicas distintas e poderosas começam a travar uma batalha dentro da nova mãe.
O embate das duas vozes
A primeira força — aquela voz silenciosa, corporal e profunda — sussurra: “Confia. Você e o seu bebê sabem o que fazer”.
A segunda força, que foi exaustivamente educada até ali, grita o oposto: “Isso não deve ser o que parece. Você não sabe o suficiente, duvide de si mesma, você não estudou ou se preparou o quanto deveria”.
O detalhe clínico mais doloroso é que conhecemos essa segunda voz intimamente. Foi justamente ela que nos transformou em quem somos no mundo lá fora: boas profissionais, mulheres competitivas, bem-sucedidas e capazes de resolver qualquer problema racional de forma impecável. Por mais irritante e dura que essa voz cobradora seja, ela nos trouxe previsibilidade, controle e segurança ao longo da vida.
Como podemos silenciar uma estratégia de controle que conhecemos tão bem para dar espaço à desconhecida, sutil e silenciosa voz do instinto? Como parar de buscar as respostas em manuais, livros ou no feed do Instagram quando fomos ensinadas que a resposta certa sempre vem de fora?
A conquista da própria voz
A verdade é que o instinto materno não surge como um passe de mágica no corte do cordão umbilical; ele é um aprendizado de escuta. Cada mulher precisará construir a sua própria estratégia para aprender a ouvi-lo.
É através de muito trabalho interno, de experimentação diária e, acima de tudo, de tolerância aos nossos próprios erros que vamos dando lugar a essa nova segurança. O objetivo da matrescência não é calar a nossa mente racional para sempre, mas apaziguar essas duas forças em atrito.
O verdadeiro amadurecimento acontece no dia em que essas vozes param de guerrear e se fundem em uma única identidade. Nem apenas bicho instintivo, nem apenas máquina operacional: a sua própria e legítima voz. Uma voz que nasce forte, segura, vibrante e integrada.
Espaço da nossa Aldeia
A transição da mente hiperprodutiva para a entrega do puerpério exige suportar o desconforto de não ter o controle de tudo em planilhas.
Você também sentiu esse choque entre a mulher profissional e resolutiva que você era e a mãe cheia de dúvidas que nasceu no pós-parto? Qual dessas duas vozes costuma falar mais alto nas suas madrugadas? Escreva a sua história nos comentários. Vamos aprender a escutar a nossa própria voz juntas na nossa próxima roda!


