Da dor à potência: o fim do mito de que a mulher nasceu para sofrer
Maternidade 10 de março de 2021 3 min de leitura

Da dor à potência: o fim do mito de que a mulher nasceu para sofrer

Você provavelmente ouviu com terror, desde pequena, que o sofrimento acompanha as mulheres como uma companheira íntima e inevitável.

A narrativa que nos vendem é implacável: menstruar é um desconforto hercúleo. O amor romântico só traz sofrimento. Parir é a dor mais terrível e insuportável que um ser humano pode experimentar. Amamentar escraviza e anula. A conclusão velada que a sociedade nos entrega é uma só: mulher nasceu para sofrer!

E o roteiro continua se você optar por ter filhos. Dizem que, quando eles nascem, você terá que abrir mão permanentemente da sua emancipação. A promessa é de que você se tornará escrava do lar e do cuidado ininterrupto de um novo ser, que também passará a fazer parte desse mundo terrível para se viver enquanto mulher.

Que triste fim parecia estar reservado para o meu destino, assim como para o de tantas outras que nasceram sob o mesmo gênero.

O despertar da fera e o renascimento no parto

Porém, quando a semente vingou no meu ventre, o roteiro mudou de direção: foi o poder que nasceu em mim, e não o sofrimento. Descobri o poder de enfrentar o medo de frente e de ressignificar a dor. Naquele momento, decidi deixar de ouvir o terror externo para dar voz, finalmente, à minha certeza interna.

Meu primeiro parto domiciliar foi um grito para o mundo. Um grito para que todos soubessem, sim, que a dor não me submete e que o medo não me paralisa.

Com a minha cria nos braços, a fera despertou para pôr para correr qualquer ameaça. Foi a certeza dessa nova vida que me fez renascer na potência real de ser mulher.

Depois de cinco filhos que pari — vivendo intensamente na dor, mas também no êxtase da intimidade e da segurança que só eu mesma e meu companheiro pudemos construir —, hoje posso olhar para trás e entender o meu propósito. Eu existo profissional e humanamente para ser cúmplice desse ressurgimento da potência que vive em cada mulher. Uma força que transcende, de uma vez por todas, o lugar de submissão e sofrimento que tentaram nos fazer caber.

Ela está aí dentro de você

Eu sei, com clareza clínica e empática, que essa mulher potente está aí, viva dentro de você, assim como um dia esteve guardada dentro de mim.

Talvez ela esteja inibida, silenciada pelas cobranças ou adormecida pelo cansaço do cotidiano, como a minha própria esteve durante muito tempo. Mas agora, que posso ver com meus próprios olhos as minhas realizações e o meu espaço no mundo, ninguém mais me fará duvidar de quem sou. E eu não permitirei que você duvide de si mesma.

O caminho da parentalidade consciente não é sobre aceitar a exaustão como destino, mas sobre retomar o protagonismo da sua história.

Espaço da nossa Aldeia

Chega de silenciar o que nos move. Romper com o ciclo do sofrimento herdado é o primeiro passo para criar filhos livres.

O que a voz da sua certeza tem a nos dizer hoje? Em que momento da sua jornada você sentiu a sua potência renascer? Deixe o seu manifesto aqui nos comentários.

Luciana Lima

Psicóloga • Especialista em Parentalidade

Psicóloga dedicada a ajudar famílias a construírem vínculos mais saudáveis e uma parentalidade mais consciente, acolhedora e prazerosa.