Muito antigamente, quando a humanidade vivia em aldeias, nós aprendíamos de forma natural, orgânica e comunitária como era cuidar de um bebê. Quem veio de uma família grande ou de uma configuração mais tradicional também teve, de alguma forma, essa possibilidade.
No entanto, o estilo de vida atual nas grandes cidades não nos proporciona muitas chances de observar, de perto e no cotidiano, um bebê e sua mãe em suas interações reais de cuidados nutritivos, de higiene ou de repouso.
Por estarmos cada vez mais isolados em nossos lares e apartamentos, não participamos da rotina alheia e nem temos a oportunidade de observar outras famílias nesse momento tão peculiar do desenvolvimento humano.
Em contraponto a esse isolamento prático, consumimos diariamente uma quantidade massiva de entretenimento e conteúdos digitais que nos influenciam a acreditar que fragmentos editados e romantizados do comportamento familiar podem — e devem — ser generalizados.
O choque entre a ficção e as madrugadas reais
Aquela cena clássica da novela ou do comercial de televisão, em que a mãe coloca o bebê acordado no berço de um quarto cuidadosamente decorado e ele adormece sozinho em segundos, representa o universo idílico que os pais desejam. Mas ela não se assemelha em nada às horas reais passadas embalando a criança na madrugada, ou ao fato de que muitos bebês simplesmente não aceitam o berço antes dos 6 meses de vida.
Se formos analisar friamente, os únicos filmes mais realistas nesse aspecto da parentalidade são as comédias escrachadas.
Essa incongruência brutal entre as referências idealizadas que consumimos nas telas e a realidade crua que vivemos dentro de casa traz uma pergunta angustiante e recorrente ao consultório: “Mas o meu filho é normal?”
Na imensa maioria das vezes, a resposta clínica é: sim, ele é perfeitamente normal.
O problema real surge quando os pais, movidos pela insegurança do isolamento, tentam encontrar fórmulas mágicas, técnicas rígidas e métodos milagrosos para fazer o bebê se comportar da maneira que o filme, a propaganda ou a influenciadora digital insinuam ser o padrão.
Mude a pergunta: investigue a singularidade do seu filho
Para afastar de vez a dúvida cruel de achar que seu filho tem algum problema só porque ele não opera como o bebê da novela, da cunhada ou do perfil de sucesso do Instagram, sugerimos um exercício de mudança de perspectiva.
Substitua a pergunta “Isso é normal?” por questionamentos focados na singularidade do seu pequeno:
- Como é o meu filho? Como ele expressa suas necessidades únicas?
- Como ele faz as coisas? Qual é o ritmo particular dele?
- Como ele se comporta para conseguir adormecer? Do que o corpo dele precisa para relaxar?
- Como ele gosta de ser trocado? Quais estímulos o acalmam ou o agitam nesse momento?
- Quanto tempo ele fica aninhado em meus braços de forma satisfeita?
- Com quais pessoas ele demonstra ter a segurança de aceitar o colo?
- Ele realmente precisa arrotar em absolutamente todas as mamadas?
- Quantos dias ele fica sem evacuar sem que isso gere nenhum tipo de incômodo real nele?
Protagonistas da própria história
As respostas para essas perguntas não estão escritas em nenhum manual de treinamento de bebês; são vocês, pais, que as encontrarão quando partirem de um novo ponto de observação, livre de comparações externas.
Na criação de um filho, não existe um gabarito rígido de “certo e errado”. O que existe, de fato, é o que funciona para você e para o seu bebê dentro da realidade do seu lar.
Vocês são as únicas autoridades no assunto quando se trata do seu próprio filho. Acolham a realidade, observem a criança real que está nos seus braços e assumam, com orgulho e sem roteiros prontos, o protagonismo dessa história única que vocês estão escrevendo juntos.


