É com uma dose profunda de sensibilidade e tristeza que, às vezes, me lembro de alguns momentos do meu desenvolvimento profissional em que senti que não fui o suficiente para ajudar alguém.
Ao olhar para trás e revisitar a minha própria trajetória, percebo que essas situações pontuais ainda apertam o meu peito com um sentimento de arrependimento. No entanto, compreendo que são exatamente essas memórias incômodas que me mantêm vigilante, ética e constantemente atenta à imensa noção do impacto que as minhas ações e palavras podem gerar no ecossistema de outra pessoa.
Busco me confortar na esperança madura de que aprendi verdadeiramente com os meus erros. Hoje, encaro cada bom resultado clínico e cada processo de cura como uma forma de honrar e compensar a possibilidade de que algo que fiz no passado possa não ter sido o melhor para alguém.
Uma fala mal colocada, um julgamento precipitado, uma exigência desmedida… Quem trabalha com o comportamento e a dor humana sabe o quanto esses deslizes podem machucar, principalmente quando partem de alguém em quem o paciente depositou profunda confiança.
O limiar entre o erro e a intervenção necessária
Mas como saber, com absoluta certeza, se determinadas posturas foram erros reais ou situações fundamentais de confronto terapêutico? Como podemos avaliar se, mesmo que o outro tenha saído contrariado da sessão, aquela não era exatamente a atitude necessária e o limite exigido para aquele momento específico do seu processo de diferenciação?
Diariamente, renovo o meu compromisso ético de não admitir o descuido para com a vida e a história das pessoas, mantendo-me em uma postura de eterna aprendiz.
Na minha vida pessoal, sigo com a leveza necessária para arriscar, experimentar, errar e ousar. Mas, na minha relação para com os outros, escolho agir com o máximo de respeito, cuidado e muito zelo, buscando estar sempre consciente dos meus próprios limites técnicos e emocionais.
A consciência que transforma a imperfeição
Ninguém nasce pronto. Nós aprendemos e nos lapidamos ao longo da caminhada. Contudo, precisamos estabelecer um marco divisor: a partir do momento em que adquirimos consciência psicológica e maturidade, existem erros que simplesmente não podem mais ser cometidos por pura negligência.
A nossa condição humana, imperfeita e limitada, precisa ser considerada e colocada na mesa em todas as relações terapêuticas e afetivas que estabelecemos. É essa humildade que nos afasta da arrogância profissional.
Um convite à auto-honestidade
Para encerrar esta reflexão, gostaria de propor um espelho para você que me acompanha aqui no ParentalLab:
- Você consegue reconhecer os seus próprios erros sem entrar imediatamente na defensiva?
- Ou você ainda acredita que assumir um deslize te coloca em um lugar de extrema vulnerabilidade e fraqueza?
- Você verdadeiramente confia em quem se vende como alguém que nunca errou?
- Ou, no fundo, você desconfia de que essa pessoa erra sim, mas é incapaz de reconhecer ou assumir as próprias falhas?
Errar faz parte do nosso direito de sermos humanos. O que nos define não é a infalibilidade, mas a nossa capacidade de reparar, aprender e transformar o tropeço de ontem no cuidado ético e refinado de hoje.


